Carta a Ricardo: Sobre o deus dos recados (“scraps”)

23 de março de 2010

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Caro Ricardo [*],
Tenho recebido vários recados (scraps) seus no Orkut. Pra ser sincero, não leio todos. Não por falta de consideração a você, que tenho em grande estima, e sim por falta de tempo mesmo, ainda mais agora que estou sem internet em casa. Mas o motivo pelo qual estou te enviando a presente carta, quer dizer, e-mail, é para manifestar a minha insatisfação com alguns recados do tipo “evangelístico” que tenho recebido ultimamente. Como os tais possuem mais ou menos o mesmo conteúdo, vou citar apenas um. Ei-lo:
Oi, preciso de um favor!!!!
Bom dia e desculpe te incomodar é que é muito urgente. Tenho um amigo que veio de muito longe e precisa ficar em algum lugar. Sendo assim, indiquei sua casa. Te peço que o receba e o ame. O nome dele é Jesus Cristo.
Agora diga bem baixo: Pode entrar Senhor, eu preciso de Ti, limpa meu coração com Teu sangue e abençoe a minha família.
Se acredita em Deus envia esta mensagem a 20 pessoas, se rejeitar lembre do que Jesus disse: “SE ME NEGAS ENTRE OS HOMENS,TE NEGAREI DIANTE DO PAI”.
Mesmo sem saber se o texto é de sua autoria (pois minha esposa já recebeu esse recado também, e não foi você quem enviou), somente o fato de você repassá-lo a outras pessoas revela que, no fundo, no fundo, abraças a teologia contida nesse scrap. Pra você não dizer que estou sendo radical e “chato” (cansei de ouvir você me chamar disso – rsrsrs!) demais, gostaria que você considerasse minhas razões.
Eu sei que Jesus certa feita disse que “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20). Todavia, este versículo não justifica nem apoia coisas do tipo “tenho um amigo que veio de muito longe e precisa ficar em algum lugar. Sendo assim, indiquei sua casa. Te peço que o receba e o ame. O nome dele é Jesus Cristo”. É bom que observemos, Ricardo, que no contexto em que Jesus falou que não tinha onde reclinar a cabeça ele estava, na realidade, pondo à prova aqueles que queriam segui-lo. O versículo 18 do aludido capítulo de Mateus diz que Jesus percebeu que havia “muita gente” ao seu redor. Foi quando um escriba (sugestivo isso, não?) aproximou-se dele e lhe falou: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores” (v. 19). Foi aí que Jesus, que sonda e conhece as reais intenções do coração, respondeu-lhe: “as raposas tem seus covis, e as aves dos céus, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (v. 20 – itálico meu). Isso significa que Jesus sabia que aquele escriba que pretendia segui-lo na realidade não estava nem um pouco disposto a negar-se a si mesmo. Como se percebe, esse texto (se é que você estava pensando nele de fato) não advoga esse tipo de teologia contida no seu recado, Ricardo! Além do mais, o modo como você coloca as sentenças transforma Jesus num pobre coitado que fica mendigando o favor dos homens para repousar em algum coração que queira recebê-lo. Esse tipo de apelo não receberia apoio nem mesmo de alguns arminianos mais fervorosos que conheço.
E tem mais. Essa coisa de dizer bem baixinho para o Senhor entrar no meu coração combina muito bem com o espírito poético-meloso da pós-modernidade, bem como com as práticas finneyanas (semi-pelagianas pragmáticas) de evangelismo, mas não com as Escrituras. Até hoje, depois de uma intensa e cansativa busca, não consegui encontrar em lugar nenhum da Bíblia qualquer texto que apoie isso. E se você estiver pensando em Apocalipse 3.20, onde Jesus diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”, pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Jesus está falando de arrependimento, o que é bem diferente dessa coisa de dizer “entra no meu coração”. Geralmente, as pessoas pedem para Jesus entrar nos seus corações quando não estão dispostas a se arrepender dos seus maus caminhos. “Entra no meu coração, Senhor”… bom, sim, mas e daí? Onde está o arrependimento, a regeneração? E o pior de tudo, Ricardo, é que tem tanta gente por aí pensando que é salva somente porque repetiu uma oração do tipo “entra no meu coração, Senhor”! Será que Jesus “entraria” num coração que não se arrependeu genuinamente, num coração que não foi regenerado pelo Espírito? Será que Jesus se deixaria levar por um pedido tão inócuo como esse?
E ainda tem mais, Ricardo. É justamente pelo fato de eu acreditar em Deus (quero dizer, no Deus da Bíblia) que eu não repassarei esta mensagem a 20, 50 ou a “x” pessoas. Prefiro falar-lhes nos termos da Palavra, e não de scraps sem conteúdo. E penso que com isso eu não esteja negando a Jesus. Lembre-se: scrap (do inglês) significa “pedaço”; “recorte”; “fragmento”. Também pode significar “refugo”; “sobras”; “sucata”. E é exatamente isso que esse tipo de recado é, Ricardo: apenas um pedaço, um recorte de evangelho, não sua totalidade. Isso quando não se torna uma verdadeira sucata; sobras de teologia barata. Lembro-te de que quando o apóstolo Paulo se despedia dos presbíteros de Éfeso ele lhes disse que não deixou de anunciar-lhes “todo o desígnio de Deus” (At 20.27). Imagine, Ricardo, se Paulo aderiria à moda dos scraps para instruir uma pessoa nos retos caminhos do Senhor? Penso que jamais.
Perdoe-me o tom não muito amistoso, caro amigo (que paradoxo! rsrsrs!), mas meu alvo não é a sua pessoa, e sim a teologia que seu recado carrega. Insisto em dizer que esse tipo de coisa, apesar de bem intencionada, não está respaldada pelas Escrituras. Também quero te pedir um favor: não me envie mais mensagens desse tipo, pois não terei o mínimo de consideração por elas (ah! se eu pudesse bloquear o recebimento de certos tipos de recados…). Não duvide que eu deletarei todas imediatamente assim que vê-las. Em vez disso, pergunte-me como é que vão as coisas por aqui em Santarém-PA. Aí sim, poderemos manter um contato, digamos, menos “beligerante” (rsrs!) e mais amistoso.
Um grande abraço!

fonte: berebeianos.blogspot

Um comentário:

  1. lindooos ameii mesmo.' que Deus continue te abençoando;D

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